sexta-feira, 29 de abril de 2011

Ele disse, ela disse_3/7

Série com 3 matérias, que serão publicadas em Abril e Maio de 2011, divididas em partes.

Aqui a 2ª matéria, dividida em 7 partes: Ele disse, ela disse; que será publicada nos dias 25, 27, 29 de Abril e 02, 04, 06 e 09 de Maio.

por Deborah Tannen

Professora de linguística da Universidade de Georgetown e autora de You Were Always Mum's Favorite!: Sisters in Conversation Throughout

Their Lives (Random House, 2009), entre outros, ver mais bibliografia na postagem do dia 09 de Maio de 2011.

Revista Mente e Cérebro

Ano XVII nº209 – Julho 2010

www.mentecerebro.com.br

Mulheres e homens usam linguagens próprias – por isso nem sempre o entendimento é tão simples. Enquanto o discurso deles tende a se concentrar na hierarquia e na competição pelo poder, o delas é voltado ao objetivo de se aproximar ou se afastar do interlocutor

Melhor ou igual?

O foco contrastante entre a conexão e a hierarquia também lança luz sobre inúmeras conversas – e desentendimentos – de adultos. Vamos dizer que uma jovem conta a outra um problema pessoal e ouve em resposta: “Sei como você se sente” ou “A mesma coisa aconteceu comigo”. A “conversa sobre problemas” que se segue costuma reforçar a ligação entre elas. Na verdade, algumas mulheres sentem que devem escarafunchar os problemas e conta-los às amigas pra manter a intimidade. Como os homens não estão acostumados a esse ritual, é muito provável que se estivessem no lugar da amiga, fizessem uma leitura errada do pedido de ajuda. O resultado, nesses casos, é a frustração mútua: ela o culpa por mandá-la fazer o que ele quer e deixar de oferecer o amparo desejado; enquanto ele pensa que fez exatamente o que ela solicitou e não tem a mínima ideia do motivo pelo qual ela continua a falar sobre a questão, se não pretende resolvê-la da forma como ele orientou.

Situações semelhantes acontecem no ambiente profissional, onde os mal-entendidos podem ter sérias consequências na carreira. Por exemplo, se o chefe de uma mulher a ouve dizendo a um subordinado: “Você poderia fazer o favor de me trazer a cópia daquele relatório?”, é possível que pense que lhe falta confiança. Para ele, é como se ela sentisse que não tem o direito de pedir ao funcionário para fazer alguma coisa. Mas a verdade é exatamente o oposto. Ela sabe que o empregado tem de fazer o que ela pede. E quando diz “poderia fazer o favor” ela opta por não explicitar desnecessariamente esse fato. Enquanto os homens tendem a enxergar os ritos femininos como falta de assertividade (ou até de competência), as mulheres confundem rituais menos diretos com prepotência e insegurança. O pensamento delas: ele realmente deve ter baixa autoestima se precisa se impor dessa forma.

O que nos leva de volta à mulher e ao homem dentro do carro, que têm suposições diferentes quanto a como pedir auxílio para encontrar o caminho. Do ponto de vista dela, essa solicitação significa fazer uma conexão breve com um estranho e chegar ao ponto desejado sem perder nada. Da perspectiva dele, a atitude o coloca em uma posição inferior diante de um estranho – o que representa uma experiência desagradável. Projetivamente, ele pode até acreditar que o esforço seja contraproducente, pois um informante que não conheça o caminho pode enviá-lo para qualquer direção equivocada, apenas para não reconhecer que não sabe a localização. Por esses dois motivos, faz sentido para ele evitar o desconforto e encarar dez minutos – ou meia hora – tentando encontrar o caminho sozinho.

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