segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Educando Crianças com Inteligência Emocional_7/11

ESTRATÉGIAS DE PREPARAÇÃO EMOCIONAL


Não seja excessivamente crítico com a criança, não a humilhe nem caçoe dela

A depreciação prejudica a comunicação entre pais e filhos e a auto-estima da criança.

Educação negativa e desmerecedora tanto pode ser observada no mundo real quanto em laboratório. Pais bem-intencionados acabam minando a auto-confiança dos filhos de tanto corrigir seus modos, ridicularizar seus erros e intervir desnecessariamente, impedindo que a criança execute as tarefas mais simples. Levianamente rotulam os filhos com epítetos que colam na auto-imagem da criança.

Os pais fiquem atentos aos hábitos insidiosos da crítica, do sarcasmo e do menosprezo. Cuidado para não ridicularizarem seus filhos. Dêem-lhes mais espaço à medida em que procuram adquirir novas aptidões, mesmo que isso signifique deixá-los cometer alguns erros. Evitem rotular os defeitos. Especifiquem as ações e não um comportamento caricatural.

Use a técnica do “andaime” e do elogio para preparar seu filho

O “andaime” é uma técnica didática que observamos ser usada com sucesso por famílias com preparo emocional. Primeiro, falam baixo, com calma, dando aos filhos as informações necessárias para iniciar o jogo. Depois, esperam a criança acertar e a elogiam especificamente (apenas especificamente) pelo que ela fez certo.

Esqueça o seu “programa educativo”

Embora os momentos de emotividade sejam grandes oportunidades de identificação, união e estímulo, às vezes são um verdadeiro desafio para os pais que possum um “programa educativo” – isto é, uma meta baseada em algum problema que o pai ou a mãe julga estar sendo prejudicial à criança. Esses programas costumam estar associados ao desenvolvimento de qualidades tais como coragem, parcimônia, bondade e disciplina. Podem variar conforme a criança. Os pais podem achar um filho excessivamente seguro e outro excessivamente tímido.

Embora algumas crianças sejam consideradas preguiçosas ou indisciplinadas, outras são sérias demais, carecendo de espontaneidade e senso de humor. Independentemente do problema em questão, esses programas fazem que os pais vivam atentos ao comportamento do filho, sempre desejando corrigi-lo. Quando surgem conflitos ligados a questões programáticas, os pais vigilantes sentem-se na obrigação moral de deixar claro seu ponto de vista: “Com essa sua cabeça-de-vento, você tornou a esquecer de dar comida para o gato e isso é uma maldade.”; “Com essa sua impulsividade, você gastou parte da sua poupança para a faculdade comprando ingressos para concerto e isso é uma idiotice”.

Para chegar à emoção que gera a má conduta, é melhor evitar perguntas do tipo: “Por que você fez isso?” Essa pergunta soa como acusação ou crítica. É mais provável a criança responder na defensiva do que com alguma informação útil. Tente, então, perguntar com interesse o que ela estava sentindo quando agiu mal.

Para conseguir entrar em contato com o filho, a mãe precisa deixar de lado seu programa de longo prazo para tornar o menino menos “teimoso”, mais dócil. Em geral, os pais reagem à má conduta dos filhos exatamente como não devem. Às vezes, censuram a criança por qualquer defeito, rotulando-as como sendo supersensível, agressiva demais, tímida de mais, desmiolada. Esses rótulos cortam a empatia. Também são destrutivos porque a criança, infelizmente, primeiro vai acreditar nos pais, para depois tentar realizar o que eles disseram, como se aquilo fosse uma profecia divina.

Nenhum pai quer que seu filho fique preguiçoso, retraído, agressivo, burro, covarde, mentiroso. Mas também não é conveniente usar esses defeitos para defini-los. Como esse tipo de rotulação negativa pode ser evitada? A resposta é: evitando críticas aos defeitos da criança. Quando corrigir a criança, focalizar o que está acontecendo com ela naquele momento específico. Em vez de dizer: “Você é descuidada e bagunceira”, diga “Tem brinquedo espalhado pelo quarto inteiro”. Em vez de “Você lê muito devagar”, diga “Se você ler todo dia meia hora antes de dormir, vai começar a ler mais rápido”. Em vez de “Não seja tão tímida”, diga “Se você falar mais alto, o garçon vai ouvir”.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Educando Crianças com Inteligência Emocional_6/11

PASSO Nº 2 – Reconhecendo a emoção como uma oportunidade de intimidade e orientação

Para muitos pais, ver nas emoções negativas da criança uma oportunidade de união e orientação é um alívio, um desafogo, um grande “ufa”. A cólera da criança deixa de ser um sinal de rebeldia. Seus medos deixam de apontar para a nossa incompetência enquanto pais. E sua tristeza deixa de ser simplesmente “mais uma coisa infernal que vou ter que resolver hoje”.

PASSO Nº 3 – Ouvindo com empatia e legitimando os sentimentos da criança

Quando começa a perceber oportunidades de se aproximar de seu filho e ensiná-lo a buscar soluções para os problemas, você está pronto para dar o passo talvez mais importante do processo de preparação emocional: ouvir com empatia.

Ouvintes dotados de empatia usam os olhos para detectar sinais físicos das emoções de seus filhos. Usam a imaginação para ver a situação da perspectiva da criança. Usam as palavras para traduzir, de forma tranqüilizadora e acrítica o que estão ouvindo e para ajudar a criança a nomear suas emoções. Mas o que é mais importante, usam o coração para sentir verdadeiramente o que a criança está sentindo.

Para entrar em sintonia com as emoções de seu filho, você precisa prestar atenção à linguagem corporal, às expressões faciais e aos gestos dele. Naturalmente você já conhece aquela testa franzida, aquela boca contraída, aquele sapateado. O que isso lhe diz sobre o que ele está sentindo? Preste atenção para que seu filho também possa ler sua linguagem corporal. Se o seu objetivo é falar de uma maneira descontraída e atenciosa, assuma uma postura que traduza isso. Sente-se ao mesmo nível que ele, respire fundo, relaxe e concentre-se. Sua atenção mostrará a seu filho que você o leva a sério e está disposto a perder algum tempo com os problemas dele.

PASSO Nº 4 – Nomear e verbalizar as emoções

Uma etapa difícil e extremamente importante no trabalho de preparação emocional é ajudar a criança a ir nomeando as emoções que vai sentindo. Pode-se usar uma série de rótulos para ajudar a criança a definir o seu problema como “tensa”, “preocupada”, “magoada”, “furiosa”, “triste” e com “medo”. Fornecer as palavras dessa maneira pode ajudar a criança a transformar um sentimento amorfo, assustador e incômodo em algo definível, enquadrado e que faz parte da vida. Raiva, tristeza e medo tornam-se experiências que todo mundo tem e com as quais todo mundo é capaz de lidar.

Nomear as emoções e demonstrar empatia são coisas que andam juntas. Um pai vê o filho chorando e diz: “Você está muito triste, não está?” Ora, não só o filho compreendeu como também tem uma palavra para descrever aquele sentimento intenso.

Estudos indicam que o ato de rotular as emoções pode ter um efeito calmante sobre o sistema nervoso, ajudando a criança a se recuperar mais rápido de incidentes desagradáveis. Embora não saibamos ao certo como se dá esse efeito calmante, a teoria diz que falar sobre uma emoção na hora em que a estamos sentindo ocupa o hemisfério esquerdo do cérebro, que é o centro da linguagem e da lógica. Isso, por sua vez, pode ajudar a criança a se concentrar e a se acalmar. Ensinar a criança a se acalmar traz enormes mudanças. A criança capaz de se acalmar sozinha desde cedo revela vários sinais de inteligência emocional: tem mais capacidade de concentração, relaciona-se melhor com os colegas, tem melhor desempenho acadêmico e é mais saudável.

Quanto maior a precisão com que a criança expressar seus sentimentos, melhor. Portanto, veja se pode ajudá-la a dizer exatamente como se sente. Se estiver irritada, por exemplo, ela pode também estar frustrada, furiosa, confusa, enciumada ou sentindo-se traída. Se estiver triste, pode estar sentindo-se magoada, abandonada, enciumada, vazia, deprimida.

PASSO Nº 5 – Impondo limites e ajudando a criança a encontrar soluções

Depois de ter perdido tempo ouvindo uma criança e ajudando-a a rotular e compreender o que sente, provavelmente você entrará naturalmente no processo de solucionar os problemas. Esse processo pode ter também cinco etapas: 1) Impor limites; 2) Identificar objetivos; 3) Procurar possíveis soluções; 4) Avaliar propostas de soluções baseadas nos valores de sua família; 5) Ajudar a criança a escolher uma solução.

  1. Impor limites

    É importante a criança entender que seus sentimentos não são o problema, seu mau comportamento é que é. Todos os sentimentos e todos os desejos são aceitáveis, mas nem todos os comportamentos o são. Portanto, tem-se que impor limites aos atos e não aos desejos.

    Isso faz sentido quando você considera que não é fácil para a criança mudar como ela se sente diante de determinada situação. Sua tristeza, seu medo ou sua raiva não desaparecem apenas porque a mãe diz: “Pare de chorar”, ou “Você não deveria estar se sentindo assim”. Dizer a uma criança como ela deve sentir-se só a faz desconfiar do que ela sente, o que a deixa insegura e a faz perder a auto-estima. Por outro lado, se dizemos à criança que ela tem o direito de sentir – mas pode ser que haja formas mais adequadas de expressar o que sente – ela fica com o caráter e a auto-estima intactos. E fica sabendo que tem a seu lado um adulto compreensivo para ajudá-la a deixar de se sentir arrasada e encontrar uma solução.

    Os pais devem estabelecer regras para os filhos baseados nos seus próprios valores, embora devam aceitar que a criança seja criança. Excesso de permissividade, por outro lado, é aceitar atos indesejáveis, tais como comportamento destrutivo. Deve-se evitar o excesso de permissividade por ser algo que “causa ansiedade e faz que, cada vez mais, a criança exija privilégios que não podem ser concedidos”.

    Ao impor limites de comportamento, os pais devem informar a criança sobre as conseqüências da transgressão. Bater também ensina, por exemplo, que a agressão é um meio apropriado de conseguir o que se quer. Estudos mostram que as crianças que apanham têm mais tendência a bater nos colegas, especialmente nos menores e mais fracos. Bater também pode trazer conseqüência a longo prazo. Pesquisas indicam que as crianças tornam-se tanto mais agressivas quanto mais severamente tenham sido castigadas fisicamente. Na adolescência, têm mais probabilidade de ser violentas e tolerar a violência de seus relacionamentos. E, finalmente, as pessoas que recebem castigos físicos na infância têm menos propensão a cuidar dos pais idosos.


  1. Identificar objetivos

    Depois de ter ouvido a criança com empatia, rotulado sentimentos e definido o que ele não pode fazer, o próximo passo deve ser identificar objetivos associados à solução de problemas. Se não lhe parecer lógica esta ordem, você pode estar se apressando.


  1. Procurar possíveis soluções

    Trabalhe junto com a criança para fazê-la encontrar uma solução para o problema. As idéias dos pais podem ser uma bênção. Se você realmente quer que a criança seja a dona da solução, deve puxar por ela para que apresente idéias.


  1. Avaliar propostas de soluções baseadas em seus valores familiares

    Agora é a hora de analisar cada idéia apresentada, decidindo as que devem ser postas em prática e as que devem ser descartadas. Sugira que seu filho considere separadamente cada solução, fazendo as perguntas abaixo;

  • A solução é justa?

  • Vai dar certo?

  • É segura?

  • Como vou me sentir? Como os outros vão se sentir

    Este exercício lhe dá mais uma oportunidade de explorar com a criança a necessidade de impor limites a certos comportamentos.


  1. Ajudar a criança a escolher uma solução

    Embora você queira estimular a criança a pensar por si mesma, esta também é a hora certa para dar suas opiniões e fornecer orientação. Neste ponto, não tenha medo de dizer a seu filho como lidou com problemas semelhantes quando era criança. O que a experiência lhe ensinou? Que erros você cometeu? Que decisões foram motivo de orgulho para você? Transmitir seus valores enquanto ajuda a criança a resolver problemas difíceis é muito mais eficaz do que simplesmente apresentar conceitos abstratos, sem qualquer relação com a vida da criança.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Educando Crianças com Inteligência Emocional_5/11

OS CINCO PASSOS


PASSO Nº 1: Percebendo as emoções da criança

As pessoas podem ser emocionalmente conscientes – e por conseguinte estar aptas para o trabalho de preparação emocional – sem ser muito expansivas, sem ter a sensação de estar se “descontrolando”. Ser emocionalmente consciente simplesmente significa a capacidade de reconhecer e identificar as próprias emoções e os próprios sentimentos e perceber emoções do outro.


COMO O MACHISMO PODE AFETAR A PERCEPÇÃO EMOCIONAL


O conforto que uma pessoa sente em expressar emoções, em parte, é influenciado por fatores culturais. Estudos multiculturais provaram que italianos ou latinos, por exemplo, costumam ser mais apaixonados e explosivos; que os japoneses ou escandinavos são mais inibidos e estóicos. Essas influências culturais, no entanto, não afetam a capacidade de sentir. O fato de não demonstrarem afeição, raiva ou tristeza não significa que as pessoas não tenham esses sentimentos. Nem significa que sejam incapazes de reconhecer as emoções do outro e reagir a elas. Sem dúvida nenhuma, pessoas de todos os meios culturais têm capacidade de perceber os sentimentos dos filhos.


QUANDO OS PAIS SENTEM-SE DESCONTROLADOS


Dar-se ao luxo de sentir também pode ser complicado para os pais que têm medo de se deixar descontrolar por emoções negativas como raiva, tristeza e medo. Pais desse tipo evitam sobretudo reconhecer a própria raiva para que as coisas não fujam de controle. Talvez receiem que os filhos se afastem deles ou que copiem seu estilo emocional, descontrolando-se também. Em geral, ainda receiam magoar física ou psicologicamente os filhos.

Os pais que se sentem descontrolados por alguma emoção, em geral apresentam uma ou mais das características abaixo:

  • São sujeitos àquele tipo de emoção (raiva, tristeza ou medo).

  • Acham que sentem essa emoção de forma excessivamente intensa.

  • Têm dificuldade de se acalmar após experimentar sentimentos intensos.

  • Ficam confusos e não sabem o que fazer quando se emocionam muito.

  • Odeiam o modo como se comportam quando estão emocionados.

  • Vivem se defendendo das emoções.

  • Quando reagem de forma neutra (com calma, compreensão, solidariedade) estão representando.

  • Acham que sensibilidade é uma coisa destrutiva e até imoral.

  • Acham que precisam de ajuda por causa daquela emoção.

Mães e pais com essas características às vezes têm tanto medo de se descontrolar que se tornam “superpais”, ocultando as emoções dos filhos. (Mas podem ter ataques de raiva com o cônjuge – que às vezes acontecem diante dos filhos). Tentando disfarçar a raiva, esses pais às vezes ignoram ou deixam passar oportunidades de se emocionar com os filhos. A ironia é que, escondendo o que sentem, esses pais podem estar criando filhos ainda com menos capacidade de lidar com as emoções negativas do que teriam se eles tivessem aprendido a deixar seus sentimentos se manifestarem de uma forma não abusiva. Por isso, os filhos crescem emocionalmente distantes dos pais.

E ficam carentes de exemplos para aprender como lidar de forma eficiente com as emoções negativas.

Se você sentir que corre o risco de magoar seriamente seu filho física ou psicologicamente, procure ajuda profissional.

Finalmente, os pais que temem descontrolar-se talvez devam lembrar-se do poder curativo do perdão. Todos os pais eventualmente cometem erros, perdendo a cabeça com os filhos, dizendo ou fazendo coisas de que depois se arrependem. A partir de quatro anos, a criança é capaz de entender o conceito de “perdão”. Então, não perca a oportunidade de voltar atrás e consertar uma situação quando sentir remorso.

Diga a seu filho o que sentia na hora do incidente e o que sentiu depois. Isso pode servir como um exemplo positivo para ele aprender a lidar com sentimentos de remorso e tristeza. Talvez seu filho até possa ajudá-lo a encontrar soluções que ajudarão vocês dois a evitar desentendimentos e conflitos futuros.

Embora o processo de conscientização da emotividade dure toda a vida, uma nova maneira de ver as coisas pode trazer resultados imediatos evidentes para os pais. Uma mãe que finalmente se permita sentir raiva está em muito melhor posição de admitir o mesmo sentimento no filho. Após reconhecer a própria tristeza, um pai está muito mais apto a ouvir a tristeza do filho ou da filha.

Entre os sinais de que a criança tem algum problema emocional, estão a fome exagerada, perda de apetite, pesadelos, queixas de dor de cabeça e dor de estômago. A criança que já está acostumada a usar o vaso sanitário pode voltar a urinar na cama.

Se desconfia que seu filho está triste, irritado ou com medo, é bom tentar colocar-se no lugar dele, ver o mundo da perspectiva dele.

Quando se comove por causa de seu filho, quando sabe que está sentindo o que ele está sentindo, você está tendo empatia, que é a base do trabalho de preparação emocional. Se é capaz de se emocionar junto com seu filho – mesmo que às vezes isso seja difícil ou incômodo – você pode dar o próximo passo, que é aproveitar os momentos carregados de emoção para ganhar a confiança de seu filho e orientá-lo.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Educando Crianças com Inteligência Emocional_4/11

PREPARO EMOCIONAL E AUTOCONTROLE


A inteligência emocional da criança é determinada até certo ponto pelo temperamento – isto é, os traços de personalidade com os quais se nasce - , mas ela também é moldada pelas interações da criança com os pais. Essa influência começa nos primeiros dias de vida, quando o sistema nervoso imaturo da criança está se formando. A experiência que a criança tem com a emoção enquanto seu sistema nervoso parassimpático ainda está em formação pode ser muito importante para o desenvolvimento do tônus do seu vago – e, por conseguinte, para seu bem-estar emocional – no futuro.

Os pais têm uma excelente oportunidade, portanto, para influenciar a inteligência emocional dos filhos, ajudando-os desde o berço a aprender técnicas calmantes de comportamento. Por mais indefeso que seja um bebê, ele é capaz de ver, pelo modo como reagimos ao seu desconforto, que a emoção tem direção; que é possível passar de um estado de intensa agonia, raiva e medo a um estado de conforto e recuperação. Os bebês cujas necessidades emocionais não são levadas em conta, por outro lado, não têm a oportunidade de aprender isso. Quando choram de medo, tristeza ou irritação, apenas ficam mais assustados, tristes e irritados ainda.


OS CINCO PASSOS FUNDAMENTAIS DA PREPARAÇÃO EMOCIONAL


Empatia: A Base do Trabalho de Preparação Emocional

Imagine como seria ser criado numa casa em que não há empatia. Imagine essa casa como um lugar em que seis pais esperam que você esteja sempre alegre, feliz e calmo. Nela, a tristeza ou a raiva são consideradas sinais de fracasso ou prenúncios de desastre. Mamãe e papai ficam ansiosos quando você está “de moral baixo”. Dizem que preferem vê-lo satisfeito e otimista, “olhando para o lado bom”, nunca se queixando, nunca falando mal das pessoas ou das coisas. E você, sendo apenas uma criança, conclui que seus pais têm razão. Quem tem mau humor é mau. Então você faz o que pode para não decepcioná-los.

E o que você aprende crescendo nesse ambiente de fingimento? Bem, primeiro aprende que seus pais são completamente diferentes de você, porque não parecem ter todos esses sentimentos ruins e perigosos que você tem. Você aprende que, por ter esses sentimentos, você é o problema. Sua tristeza estraga tudo. Sua raiva é um constrangimento para o clã. Seus medos atrapalham a família. A família provavelmente seria perfeita se não fosse você e suas emoções.

Com o tempo, você aprende que é bobagem falar com seus pais sobre a sua vida interior. E isso faz com que você se sinta só. Mas você também aprende que desde que você finja estar alegre, todo mundo convive otimamente bem.

Obviamente, isso pode confundir – especialmente à medida que você vai crescendo e vendo cada vez mais provas de que às vezes a vida é uma chatice. Chega o dia do seu aniversário e você não ganha o brinquedo que estava querendo. Seu melhor amigo arranja outro melhor amigo e deixa você sozinho na fila da cantina. Você põe aparelho nos dentes. Perde a sua avó predileta.

E, no entanto, você não deveria ter esses sentimentos negativos todos. Então você vira uma mestre do disfarce. Melhor ainda, faz tudo o que pode para não sentir. Aprende a evitar situações que gerem conflito, raiva e dor. Em outras palavras, evita relacionar-se intimamente com as pessoas.

Mas, e se as coisas fossem diferentes? E se você fosse criado numa família em que a prioridade, em vez da alegria, fosse a compreensão e a empatia? Imagine se seus pais perguntassem “Como vai você?” porque realmente quisessem saber a verdade. Talvez você não se sentisse impelido a responder “Vou bem”, todas as vezes, porque saberia que eles agüentariam se você dissesse “Hoje o meu dia foi brabo”. Eles não tirariam conclusões precipitadas, nem ficariam achando que cada problema era uma catástrofe que eles precisavam consertar. Simplesmente ouviriam o que você tivesse para dizer e depois fariam o possível para compreender a ajudar você.

Em sua forma mais básica, empatia é a capacidade de sentir o que o outro sente. Como pais dotados de empatia, ao ver nossos filhos chorarem, conseguimos nos ver no lugar deles e sentir sua dor. Ao vê-los irritados, batendo o pé, podemos sentir a frustração e a raiva que eles sentem.

Como a empatia pode ter tanta força? Creio que por fazer que os filhos vejam os pais como alidados.

Quando procuramos compreender a experiência de nossos filhos, eles se sentem amparados. Sabem que estamos do lado deles. Quando deixamos de criticá-los, de fazer pouco do que sentem, ou de tentar desviá-los de seus objetivos – eles nos dão entrada. Abrem-se conosco. Dão opiniões. Suas motivações ficam menos misteriosas, o que, por sua vez, faz que haja mais compreensão.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Educando Crianças com Inteligência Emocional_3/11

COMO O PREPARO PODE REDUZIR OS RISCOS DA CRIANÇA


Não resta dúvida de que os pais de hoje enfrentam problemas que os de antigamente não enfrentavam. Enquanto nos anos 60 a preocupação dos pais podia ser se o filho ia beber na noite da formatura, hoje passou a ser com a venda de cocaína nas escolas de segundo grau. Há pouco, os pais temiam a possibilidade de suas filhas adolescentes engravidarem. Atualmente, já na quinta série, estão falando de AIDS com os filhos.

Hoje não basta educar as crianças, dando-lhes uma boa formação escolar e incluindo-lhes sólidos princípios éticos. As famílias de hoje também precisam se preocupar com algumas questões mais básicas de sobrevivência. Como podemos imunizar as crianças contra a epidemia da violência que vem grassando entre a juventude? Como podemos convencê-los a adiar o início da atividade sexual até terem maturidade suficiente para fazer escolhas responsáveis e seguras? Como incutir-lhes uma dose suficiente de respeito próprio para que não abusem de drogas nem de álcool?

Uma criança que está sofrendo emocionalmente não deixa os problemas na porta da escola. Conseqüentemente, em todo o país, as escolas vêm acusando um aumento dramático de problemas de comportamento nesta última década. As escolas públicas – muitas já sem recursos devido a uma política antiimpostos – estão tendo que prestar um número cada vez maior de serviços sociais às crianças emocionalmente carentes.


PREPARAÇÃO EMOCIONAL COMO UM PASSO EVOLUTIVO


Muitos adultos não acham nada demais rir de uma criancinha irritada. Muitos pais bem intencionados ignoram os medos e preocupações dos filhos, como se isso não tivesse importância. “Não há nenhum motivo para você ter medo”, dizemos a uma criança de cinco anos que acorda de um pesadelo. “Então, você não viu o que eu vi”, deveria ser a resposta. Mas essa criança começa a aceitar a avaliação que o adulto faz da situação em que ela se encontra e aprende a duvidar do próprio julgamento. Com os adultos constantemente invalidando seus sentimentos, ela perde a confiança em si mesma.

Assim, herdamos uma tradição de fazer pouco dos sentimentos da criança, simplesmente porque ela é menor, menos racional, menos experiente e mais fraca que os adultos em volta dela. Levar a sério as emoções da criança exige empatia, capacidade de ouvir e vontade de ver as coisas pela ótica dela.

O psiquiatra Lloyd deMausse (ensaio de 1974) descreve que educar uma criança “tornou-se menos um processo de dominar a vontade da criança do que treiná-la, orientá-la para o caminho certo, ensinando-a a adaptar-se e socializando-a”.

Agora sabemos que a força do relacionamento do casal afeta o bem-estar dos filhos, e podemos ver o imenso potencial de um relacionamento onde há mais envolvimento dos pais com os filhos. E, finalmente, podemos documentar que, para que a criança possa desenvolver sua inteligência emocional, é fundamental os pais perceberem os próprios sentimentos.

Haim Ginott (psicólogo) escreveu entre os anos 50 e 60 que as afirmações de compreensão devem preceder os conselhos. Ele não encoraja os adultos a dizerem às crianças como devem sentir-se porque isso só faz que as crianças não confiem no que sentem. Ele diz que as emoções das crianças não desaparecem quando os educadores dizem “Não se sinta assim”.

Ao contrário de muitos educadores, Ginott não desaprova que a pessoa se irrite com a criança. Na verdade, ele acha que os adultos devem expressar honestamente sua irritação, desde que ela seja dirigida a um problema específico e não agrida a personalidade nem o caráter da criança.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Educando Crianças com Inteligência Emocional_2/11

OS EFEITOS DA PREPARAÇÃO EMOCIONAL

O que muda quando a criança tem educadores preparadores emocionais?

Crianças que têm preparo emocional são fisicamente mais saudáveis e apresentam melhor desempenho acadêmico do que as que não têm. Essas crianças se dão melhor com os amigos, têm menos problemas de comportamento e são menos propensas à violência. E o que é mais importante, têm menos sentimentos negativos e mais positivos. Em resumo, são mais saudáveis emocionalmente também.

As crianças com preparo emocional são mais maleáveis. Elas não deixam de ficar tristes, irritadas ou assustadas em circunstâncias difíceis, mas têm mais capacidade de se acalmar, sair da angústia e procurar atividades produtivas. Em outras palavras, são mais inteligentes emocionalmente.

Os problemas que as crianças enfrentam hoje, associados à dissolução da família, incluem fracasso na escola, rejeição por outras crianças, depressão, complicações de saúde e comportamento anti-social. Isso pode também afetar filhos de lares onde há conflito, mesmo quando os pais não se divorciam. Os filhos que vêem os pais constantemente brigando têm mais dificuldades de fazer amigos. O conflito conjugal afeta o trabalho escolar da criança e a torna mais sujeita a doenças.

As crianças que passaram por treinamento emocional, embora sejam mais tristes do que as outras, ficaram protegidas dos efeitos deletérios experimentados por tantas outras que passaram por essa experiência. Conseqüências clássicas do divórcio e dos conflitos conjugais como baixo rendimento escolar, agressividade e problemas com os colegas, não ocorrem em crianças que receberam o treinamento da emoção. O que sugere que esse treinamento oferece às crianças a primeira defesa comprovada contra o trauma emocional do divórcio.

É comprovado também que o pai que adota o estilo de preparador emocional contribui enormemente para o desenvolvimento emocional da criança. Quando o pai leva em conta os sentimentos dos filhos e tenta ajudá-los a resolver os problemas, eles se saem melhor na escola e nas relações pessoais. Em compensação, o pai emocionalmente distante, aquele que é rude, crítico ou que faz pouco das emoções dos filhos, pode prejudicá-los. Os efeitos da interação da mãe com os filhos são significativos, mas a influência do pai pode ser muito mais extrema, seja esse efeito bom ou mau.

Não devemos presumir, porém, que é melhor um pai qualquer do que nenhum. Ao mesmo tempo que um pai emocionalmente presente pode ser altamente benéfico para a vida da criança, um pai frio e cruel pode ser extremamente nocivo.

Praticar o treinamento da emoção não garante o fim das brigas em família, das agressões verbais, dos sentimentos feridos, da tristeza nem da tensão. O conflito é inerente à vida em família. No entanto, quando adotar o treinamento da emoção você vai se aproximar mais de seus filhos. E, quando houver mais intimidade e respeito em casa, os problemas entre os membros da família parecerão fáceis de suportar.

O treinamento da emoção não significa o fim da disciplina. Na verdade, quando há intimidade entre você e a criança, seu envolvimento na vida dela é maior e, conseqüentemente, sua influência sobre ela é mais forte. Você está em posição de ser firme, quando for necessário ser firme. Quando vê as crianças errando ou sendo relapsas, você as adverte. Não tem medo de impor limites. Quando se decepciona com elas, quando sabe que elas podem fazer melhor, você não tem medo de lhes dizer isso. E porque existe um elo emocional entre você e a criança, o que você diz é importante. Ela respeita as suas opiniões e não quer desagradar você.

Esse trabalho exige uma boa dose de dedicação e paciência, mas essencialmente é um trabalho de treinamento como outro qualquer. Se quer ver a criança lidar com os sentimentos e as tensões e desenvolver relacionamentos sadios, você não cala nem ignora demonstrações de emoção negativa. Une-se à criança e oferece orientação.

Avós, professores e outros adultos podem servir de preparadores emocionais para uma criança, mas os pais estão em melhor posição para o desempenho dessa função.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Educando Crianças com Inteligência Emocional_1/11

PREPARAÇÃO EMOCIONAL

(A chave para a criação de crianças emocionalmente inteligentes)

Como lidar com as crianças quando os ânimos esquentam. Todos desejamos ser justos com as crianças, tratá-las com respeito e paciência. Queremos ensiná-las a enfrentar os problemas e criar amizades fortes e saudáveis.

Para se educar uma criança, o intelecto só não basta. É preciso mexer com uma dimensão da personalidade que vem sendo ignorada na maioria dos conselhos dados aos educadores nos últimos trinta anos. É preciso mexer com a emoção.

A percepção emocional e a capacidade de lidar com os sentimentos determinam o sucesso e a felicidade da pessoa em todos os setores da vida, inclusive o das relações familiares. Inteligência emocional significa perceber os sentimentos das crianças e ser capaz de compreendê-los, tranqüilizá-los e guiá-los. Inteligência emocional envolve a capacidade de controlar os impulsos, adiar a gratificação, motivar-se, interpretar as insinuações da sociedade e lidar com os altos e baixos da vida.

A família é a nossa primeira escola de aprendizado emocional. Nesse cadinho íntimo, aprendemos como nos sentir em relação a nós mesmos e como os outros reagirão aos nossos sentimentos; como pensar sobre esses sentimentos e que escolhas temos ao reagir; como interpretar e expressar esperanças e medos.

Basicamente há dois tipos de educadores: os que orientam as crianças no mundo da emoção e os que não orientam.

Assim como o preparador físico de um atleta, o educador ensina às crianças estratégias para lidar com os altos e baixos da vida. Não se opõem às manifestações de raiva, tristeza ou medo delas. Nem as ignoram. Ao contrário, aceitam as emoções negativas como coisas que fazem parte da vida e aproveitam os momentos de exaltação emocional para ensinar-lhes importantes lições de vida e construir um relacionamento mais íntimo com eles.

Entre os educadores incapazes de ensinar inteligência emocional às crianças, identificam-se três tipos:

  • Simplistas, que não dão importância, ignoram ou banalizam as emoções negativas da criança;

  • Desaprovadores, que são críticos das demonstrações de sentimentos negativos das crianças e podem castigá-las por exprimirem as emoções;

  • “Laissez-faire”, que aceitam as emoções e demonstram empatia por elas, mas não orientam nem impõem limites.

O que faria de diferente uma preparadora emocional? Poderia começar como condescendente mostrando empatia, compreendendo a tristeza da criança. Mas iria além, orientando-a sobre o que fazer com os sentimentos desagradáveis.

O processo de preparação emocional se dá em cinco etapas:

1 – Perceber as emoções da criança;

2 – Reconhecer na emoção uma oportunidade de intimidade ou aprendizado:

3 – Ouvir com empatia, legitimando os sentimentos da criança;

4 – Ajudar a criança a encontrar as palavras para identificar a emoção que está sentido;

5 – Impor limites ao mesmo tempo em que explora estratégias para a solução do problema em questão.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Uso "terapêutico" de álcool por ansiosos leva à dependência

Correio do Estado - DA REDAÇÃO

O hábito de consumir álcool para "afogar as mágoas" e aliviar o estresse pode ser uma porta de entrada para o alcoolismo para pelo menos um tipo de pessoa: aquelas com sintomas de ansiedade, segundo novo estudo de uma universidade do Canadá.

Poucas pesquisas sustentavam essa relação de causa e consequência até agora. Fazendo acompanhamento de saúde e entrevistas com mais de 34 mil pessoas nos EUA, cientistas concluíram que pessoas com problemas como transtorno de pânico ou fobias são especialmente vulneráveis a esse fator de risco.

Pacientes que praticavam o consumo "terapêutico" de bebidas alcoólicas (ou de qualquer outro tipo de droga) contra a ansiedade aumentaram de três a seis vezes o risco de dependência.

Na pesquisa, feita na Universidade de Manitoba (Canadá), 12,6% das pessoas com transtornos de ansiedade desenvolveram alguma forma de alcoolismo após usar a bebida como alívio.

Daqueles que tinham ansiedade, mas não praticavam "automedicação de sintomas com álcool", apenas 4,7% tiveram o problema.

"A análise sugere que 15,9% dos diagnósticos incidentes de transtornos do álcool nessa população podem ser atribuídos à automedicação com álcool", afirmam James Bolton e seus colegas, autores de um estudo publicado na revista "Archives of General Psychiatry".

CÍRCULO VICIOSO

Um outro efeito perverso foi o de que a dependência de álcool ou outras drogas agiu contra a melhora de sintomas de ansiedade a longo prazo. Atuando apenas de forma paliativa e circunstancial, a automedicação tinha uma tendência a se tornar vício.

O abuso de álcool e drogas foi particularmente alto como fator de risco para um tipo específico de transtornos de ansiedade: a fobia social.

Esse é o nome dado ao pavor de interação com outros por medo de reprovação, passar vergonha em público, humilhação etc.

"Uma possível explicação para isso é que a má aceitação social do uso de drogas pode criar um desejo de evitar contato social", afirma Bolton. "Outra é que esses indivíduos já tivessem uma fobia social abaixo do limiar [de diagnóstico], que foi exacerbada pelo uso de drogas."

Segundo o pesquisador, o transtorno de ansiedade acompanhado de dependência também é mais difícil de tratar, porque a abstinência pode provocar uma intensificação dos sintomas que são típicos da ansiedade.

"Ao identificar um comportamento real ou potencial de automedicação, os médicos podem trabalhar para prevenir o surgimento simultâneo da comorbidade [ansiedade ligada ao alcoolismo] em certos pacientes", diz.

(Com informações da Folha)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

"O VERDADEIRO SENTIDO DAS COISAS"

Este vídeo irá mudar a forma como as pessoas vêm o consumo e os produto, é um alerta importante para todos os consumidores.

Um pequeno documentário educativo que apresenta importantes informações sobre questões ambientais e sociais dentro da temática do consumo de produtos, que representa um assunto urgente e de vital importância para a sobrevivência de todo o Planeta e da espécie Humana, para o presente e o futuro.

A História das Coisas é um documentário rápido e repleto de fatos que olha para o interior dos padrões do nosso sistema de extração, produção, consumo e lixo. Todas as coisas que compramos e usamos na nossa vida afetam as sociedades e o ambiente a nível local e mundial, mas a maioria destes fatos são propositadamente manipulados e escondidos dos nossos olhos pelas empresas e políticos, cujos objetivos principais são o lucro e o poder.

Isso é obtido através do consumo exacerbado que só pode ser realizado à custa de toda a vida na Terra, de sofrimento, exploração e destruição ambiental.

A História das Coisas expõe assim as conexões entre diversas questões ambientais e sociais, demonstrando com fatos, que ao consumirmos de forma inconsciente e desmedida, estamos destruindo o mundo e a nós mesmos.

É hora de tomarmos consciência do problema, para criarmos um mundo mais sustentável e justo para todos, para o planeta Terra e para futuras gerações.

EDIÇÃO E MONTAGEM: CRSS3
Aracatiara/Amontada/Itapipoca/Itarema

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Um papo com Gaiarsa

Há quatro anos, uma entrevista marcou minha trajetória no jornalismo. Apesar de nunca ter sido publicada, a conversa que tive com José Ângelo Gaiarsa me ajudou a abrir os olhos sobre as questões da família, sexualidade e da psique humana. De forma direta e simples, ele tratava de temas polêmicos e questionadores.

Infelizmente, a ideia de publicação da entrevista só surgiu depois da morte do autor, há duas semanas, aos 90 anos. Ele deixa um legado importante para a família brasiliera: o despertar para a necessidade do diálogo e da compreensão. Como uma homenagem, compartilho aqui a sabedoria de Gaiarsa.

José Ângelo Gaiarsa, o “inimigo” da família *

“São 50 anos ouvindo as mazelas humanas.” Assim o médico e psicoterapeuta José Ângelo Gaiarsa, definiu sua trajetória clínica, como orientador e pesquisador das variabilidades psíquicas humanas. No último dia 16, o doutor Gaiarsa, autor de mais de 30 livros, faleceu enquanto dormia aos 90 anos. Deixou como legado uma vasta obra, além de popularizado conhecimentos sobre sexualidade, relacionamentos e família, ao apresentar por 10 anos ininterruptos o quadro Quebra-cabeça, no programa Dia a Dia da TV Bandeirantes. Inúmeras horas de estudo e de consultório deram ao psicoterapeuta a autoridade para fazer afirmações polêmicas. Gaiarsa não negava que fosse “inimigo” da família e do casamento — pelo menos da forma como são interpretados pela sociedade. Em 2006, ele concedeu uma entrevista ao então repórter da Revista João Rafael Torres, em que falou sobre traição e defendeu o fim das ilusões. “Não dá para pensar num casamento feliz para todo o sempre. O segredo da felicidade é perceber quando ela chega na nossa vida, e aproveitá-la até que esse momento se esgote”, ensinou. A entrevista acabou não publicada. Em homenagem ao psicoteraupeuta, recuperamos esse material inédito e ofereceremos ao nosso leitor.

Por que o senhor diz que a família é o lugar mais perigoso que se tem para educar uma criança?

GAIARSA:

Quem diz não sou eu, são as estatísticas. A Unicef apurou que, só em 1998, mais de 80 mil crianças da América do Sul morreram por conta de maus tratos provocados dentro de casa. A educação se torna um escudo para que a família possa maltratar as crianças. E não é só a pancada, também existe o olhar duro, o castigo psicológico, a omissão. A verdade é que não existe escola de formação de pais, e a missão de educar uma criança é uma das tarefas mais difíceis do mundo. Para 90% dos pais, educar é repetir tudo o que aprendeu dos próprios pais — mesmo que isso implique numa educação retrógrada e conservadora. Não é à toa que as neuroses nascem sempre das relações familiares.

As relações familiares têm mudado nos últimos anos?

GAIARSA:

Nasci em 1920 e recordo de muitas coisas da minha infância e adolescência. Naquela época, os pais eram mais autoritários, tínhamos menos amigos, a religião tinha um grande peso. A televisão, o rádio e atualmente a internet retiraram a família desse núcleo fechado. O cenário é outro, mas o discurso é o mesmo. Há uma grande dissociação entre o que se elogia nos outros e o que se faz na prática.

O acesso à informação não deveria favorecer uma geração mais equilibrada?

GAIARSA:

As crianças que nascem hoje são muito diferentes, na medida em que tem acesso a muita informação. Hoje todos têm um conhecimento mínimo sobre qualquer assunto. Isso cria um distanciamento e uma dificuldade de compreensão entre pais e filhos como nunca havia acontecido em toda a história. Fica difícil para os mais velhos acompanhar a rapidez do raciocínio dos mais novos. Para muita gente, informação demais é tóxica. Em vez de proteger, a informação intensifica o conflito, quando a comparamos com os valores transmitidos dentro de casa. Nesse momento, a vontade de se fazer "normal" diante das pessoas se transforma noutra neurose. A preocupação com isso é tamanha que a família se transforma numa oficina de produção artesanal de "normopatas", praticamente um minimanicômio. Como consequência, crescem os dois maiores negócios do mundo: as armas e as drogas, incluindo aí os psicotrópicos e o álcool. As pessoas buscam qualquer forma de sair desse mundo. É muito difícil aguentar a realidade.

Até que ponto a dificuldade de comunicação entre pais e filhos se estende ao sexo, aos relacionamentos afetivos?

GAIARSA:

Sexo continua assunto proibido. Os pais negligenciam que o bebê já tem as primeiras manifestações sexuais no sétimo mês de vida intrauterina. Logo que nascem, as crianças são educadas de uma forma que as faz negar a expressão do próprio corpo. Passa a repetir apenas gestos estereotipados, dentro do que é convencional à sociedade. Além disso, os próprios pais não se permitem demonstrar o afetivo e o erótico entre si, diante dos filhos. Não há evidências de que se gostam, como beijos e abraços. Educação sexual é isso. Não é só dar informações sobre sexo.

Em seus livros, o senhor faz severas críticas à forma como as mães se portam diante de suas crianças. Afinal, até que ponto elas são culpadas pelas frustrações futuras dos filhos?

GAIARSA:

Novamente, o problema está entre a cisão entre o discurso e a prática. As mães mudaram muito. Estão mais independentes, não exercem mais tanta influência sobre os filhos e estão mais tempo for a de casa. Graças a Deus. Mesmo assim, ainda afirmo que, juntas, elas constituem o maior partido conservador do mundo. Ensinam o autoritarismo e as chamadas grandes virtudes da família, que são uma balela na sociedade. No mundo, ninguém consegue ser educado, honesto e dizer sempre a verdade. E o que é ainda mais grave e mais grotesco: elas ainda fazem questão de se manterem sagradas diante dos filhos, como se não tivessem sexo. Com isso, os filhos aprendem que só pode existir amor da cintura para cima.

Que complicações isso pode trazer para a vida de ambos?

GAIARSA:

A relação entre mães e filhos começa errada logo no nascimento. Geralmente, são separados de uma forma abrupta justamente num momento importante de identificação, dos primeiros contatos, do primeiro cheiro, do primeiro olhar. Quando saem da maternidade, vem o segundo erro: pensar que devem ficar eternamente juntos. A crença de pensar que mãe é para sempre também é um pecado. Em todas as espécies, as mães cuidam dos filhos enquanto eles precisam de cuidados. No caso dos homens, não. Ninguém está preparado para esta separação. Ao contrário, é cada vez mais comum encontrar marmanjos vivendo dentro da casa da mãe santa e eterna, com tudo à mão. E, o que é pior, ela adora isso. O terceiro tabu está em querer amar todos os filhos da mesma forma, como se eles não tivessem individualidades que os tornassem diferentes.

A dificuldade dos homens de se ligarem em relacionamentos estáveis está relacionado a esse comportamento?

GAIARSA:

Na fase em que passa de menino para homem, naquele período onde o sexo é o que domina a cabeça, a educação sexual é feita pelos próprios companheiros. Eles compartilham suas "experiências" de uma forma rústica, quase animalesca. Competem entre si, ao mesmo tempo que mantêm grande cumplicidade. Para se manterem integrados, deixam de agir com naturalidade. Muitas vezes, essa experiência se perpetua nos outros relacionamentos. Por outro lado, vem aquela idéia de almas gêmeas, que é predominantemente feminino. O homem patina então pelo meio termo. Nas datas especiais, manda um buquê de flores. No auge do romantismo, escreve uma música. Isso é mais uma atitude do "normopata", por não ter espontaneidade. As pessoas se preocupam no tal do casamento para sempre, até que a morte separe. Mas não estão preocupadas em nutrir o amor. Precisam aprender que não existe felicidade plena. O segredo é perceber quando ela chega na nossa vida, e aproveitá-la até que esse momento se esgote.

As palavras do senhor desanimam qualquer pessoa que pense em casamento…

GAIARSA:

(Risos) E você, meu filho, ainda acredita em casamento? Os ditos casamentos se tornaram verdadeiras tragédias cômicas. A realidade de consultório mostra que dois terços dos sofrimentos psicológicos vêm de relações familiares. Dois terços das moléstias psicossomáticas, incluindo aí o uso de tóxicos e a depressão, vem de casamentos vazios. São pessoas que chegaram a uma certa idade e desistiram de brigar pela felicidade. Se acomodam e esperam a morte. A separação é um dos maiores dramas do ser humano, mesmo quando o casamento está lotado de problemas. O indivíduo fica encurralado: se fica dentro de casa, é infeliz; se sai de casa, se sente culpado e também é infeliz.. Eu, que já casei cinco vezes, posso dar meu testemunho. A experiência terapêutica não amenizou minha dificuldade ao me separar pela última vez. A maior parte dos casamentos dura o dobro do que deveria e só se estende pela covardia.

Retirado de: http://tarotanalitico.blogspot.com/2010/10/um-papo-com-gaiarsa.html

* A entrevista foi publicada em 28/10/2010 no blog da Revista do Correio.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A temida escada.....

Escada de metrô em Estocolmo, Suécia, foi "transformada" em piano. A ação, feita em conjunto pela agência de publicidade DDB e pela Volkswagen. As duas empresas se reuniram para criarem um experimento chamado, Fun Theory (teoria divertida), uma tentativa de tentar mudar os hábitos sedentários dos moradores.

Confira no vídeo:

video