sexta-feira, 13 de julho de 2012

Elogio à Timidez_6/7


Por Gláucia Leal, jornalista, psicóloga e psicanalista, editora de Mente e Cérebro
Fonte: Revista Mente & Cérebro, n° 233, junho/2012

Vergonha, inibição e sintoma (por Christian Ingo Lenz Dunker)

Desde que o filósofo alemão Immanuel Kant, no século 18, definiu a autonomia como uso público da razão, estabelecendo esse critério para distinguir a maioridade moral, ficou claro que se tornar sujeito envolve a capacidade de expressar-se. Ocorre que o uso da linguagem é condicionado tanto por estruturas formais (cognitivas, sintáticas, discursivas) quanto pela tomada de posição com relação a valores estéticos, culturais e identificatórios. Assumir a língua (que se impõe a nós) por meio da fala já é visto como definição da competência humanizante e desejante conferida pela linguagem.
Hoje, muitas produções neológicas são admitidas, mas ao mesmo tempo o falar público tornou-se perigoso, pois denuncia algo especial e involuntariamente revelador sobre nós pela forma coo falamos. E o inibido verbal sabe disso. Na Inglaterra, por exemplo, é comum encontrar pessoas que forjam sotaques, pois sabem que isso pode ser decisivo para fechar negócios ou ser admitido em um emprego. O sotaque upper class é uma marca de origem e distinção social, eventualmente mais valiosa que a indumentária e as posses materiais.

Freud argumentava que sintomas são “exagerações” de processos úteis e relevantes em outros contextos. As dificuldades de fala pública não são propriamente um sintoma, mas se enquadram no que a psicanálise chama de inibição – s suspensão de um processo ou função. Esta evitação pode generalizar-se em uma atitude que empobrece as relações, obstruindo a capacidade de realização e oferecendo em troca apenas algum controle artificial da realidade. A inibição organiza-se como uma identificação, ou como um “sintoma envelhecido ou fora de contexto”. Isso quer dizer que o problema pode não ser notado, pois a pessoa evita, contorna ou cria barreiras para não se expor a determinada situação.

Se a culpa é o afeto central que marca os sintomas, a vergonha é típica da inibição, exigindo uma nítida separação entre o público e o privado. Em muitos casos, na dificuldade de colocar-se publicamente está em jogo uma espécie de defesa e lembrança veemente de nossa origem. Diante da impossibilidade, imaginária ou real, de fazer-se reconhecer por meio do lugar de onde veio, o sujeito escolhe retirar-se do jogo. Não é só um fracasso de desempenho discursivo; há também um sentido crítico contra a situação social em que a indeterminação da fronteira entre público e privado se torna cada vez mais nebulosa e precária.

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